A mobilização social é um vigoroso instrumento de defesa de direitos e poderoso para pressionar os Poderes no exercício de seus deveres, obrigações, finalidade pública, observância da supremacia do interesse público, zelo dos recursos públicos e gestão voltada à qualidade de vida do povo. Não existe um futuro promissor para uma nação de cidadãos servis e acomodados que entrega o poder aos legisladores permissivos, a uma justiça leniente e aos governantes negligentes, perdulários e ambiciosos que cobram impostos abusivos, desperdiçam dinheiro público, sonegam saúde, submetem a educação, estimulam a violência, tratam o povo com descaso e favorecem a impunidade dos criminosos.

segunda-feira, 1 de julho de 2013

O RELÓGIO PAROU



Na democracia, confinar o indivíduo no seu gueto não é valorizá-lo, mas uma visão equivocada da equidade e da justiça

PAULO DELGADO
O GLOBO
Atualizado:1/07/13 - 0h00


Soltou a mola do relógio da nação. O que não significa que não possa ser consertado. Por isso, devagar com a primeira pedra: só se decepciona quem admira. A sensação de privação aumenta com a abundância, e piora quando a ênfase dada ao consumo individual torna secundários os problemas coletivos. Ao esticar a corda do individualismo e da diferença, a autoridade até se populariza, mas cuidar do coletivo e da igualdade é que populariza o povo. O Estado, instrumento da execução dos interesses da sociedade, virou uma instância privilegiada dela. É de lascar ver a luxúria e o plutocratismo se meterem nos Três Poderes roubando a aura austera do Estado. E levando junto a alma altruísta dos jovens, atraídos por concursos, muitos fraudados, para qualquer cargo ou função.

O engenhoso mecanismo que sustenta o mais longo período democrático brasileiro não tira seu chapéu para a organização da máquina pública. É um pecado ignorar que a sociedade não pode pagar pelo tablado onde o Estado montou sua peça e encena seu papel desde a redemocratização. Por isso não cabe pedir a todo mundo paciência e compreensão vendo a política colonizar a vida social.

Nenhum governo se equilibra muito tempo se espera gratidão por aquilo que faz. Tudo se move, especialmente os desejos e o desenho de uma sociedade como a nossa. Ou seja, há profunda diferença entre ter que cuidar o dia inteiro dos interesses da coalizão política ou estar voltado para a vida da população. É uma confusão o governo achar que é sempre compreendido, e que apoio popular significa que ali está a expressão de uma emoção desinteressada. Como é insustentável passar o chapéu do Tesouro no mercado para subsidiar opulência ou bobagem sugerida por protegidos.

Não é a falta de liberdade que anda irritando as pessoas, é a sua má qualidade. A capacidade de transformar a sociedade, com confiança e apoio popular, deve conter uma ação interior de mudança de atitude dos governantes e dos seus apoiadores, no setor público e privado. Não é livre, seja rico, seja pobre, quem depende de favor.

É possível atribuir crédito à agitação das ruas sem precisar dizer que ela tem existência própria ou deseja se livrar do Estado intrometido. No mundo em rede nem o arbítrio é livre, nem é total a servidão. A angústia de intervir na condução das coisas pode até ser extinta por cooptação, o que seria um retrocesso, ou filosoficamente, o que seria um passo à frente. Não é a perda da liberdade ou da fortuna que impulsiona esse coração desesperado. Não estamos no Oriente Médio ou na Europa.

Cada um pede segundo sua saciedade e seguro que vive numa sociedade incompleta. Quem quiser manipular a multidão para levá-la a acumular mérito contra ou a favor de alguma coisa, ou alguém, vai desfazer o sortilégio. Vai descobrir, e destruir, o indivíduo que está dentro da multidão.

Porque nenhum indivíduo é uma abstração e essa agitação nem é conservadora, nem desesperadora. É uma névoa, farrapos do caos. Um apelo para parar com obras porcas; fazer as coisas com mais eficiência e cuidado; cercar-se de gente mais moderna e independente; desconfiar da primazia do cargo. É necessário o progresso do país, mas indispensável a melhoria interior das pessoas.

A questão é que, na democracia, confinar o indivíduo no seu gueto não é valorizá-lo, mas uma visão equivocada da equidade e da justiça. Dar-lhe escola sem se preocupar em fazê-lo um ser humano melhor aumenta sua frustração. Insistir em ônibus é mais decepção. E, como descuidado anfitrião, convidar o povo para a festa do consumo sem pensar no seu conforto, multiplica sua irritação. O governo não deve tratar críticas como se fossem ninharias ou achar que são velhas ofensas. Deve apostar no voluntariado e na compaixão que existem na sociedade sem precisar estatizar a bondade e a família. Há vida fora do campo tributário e, em relação a ele, por que tributar mais que o tolerável?

São incompreensões sobre a relevância do desconforto diante de arbitrariedades e da tutela que levam o indivíduo a querer ser multidão.

Paulo Delgado é sociólogo e foi deputado federal pelo PT de Minas Gerais

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