A mobilização social é um vigoroso instrumento de defesa de direitos e poderoso para pressionar os Poderes no exercício de seus deveres, obrigações, finalidade pública, observância da supremacia do interesse público, zelo dos recursos públicos e gestão voltada à qualidade de vida do povo. Não existe um futuro promissor para uma nação de cidadãos servis e acomodados que entrega o poder aos legisladores permissivos, a uma justiça leniente e aos governantes negligentes, perdulários e ambiciosos que cobram impostos abusivos, desperdiçam dinheiro público, sonegam saúde, submetem a educação, estimulam a violência, tratam o povo com descaso e favorecem a impunidade dos criminosos.

sexta-feira, 5 de julho de 2013

E SE TUDO FICAR COMO ESTÁ?

ZERO HORA 05 de julho de 2013 | N° 17482

Renato Soares Gutierrez*


Todos se perguntam se o momento histórico vivido pelo Brasil resultará em modificações substanciais na vida da população.

Alguns sábios contestam as manifestações, suave e dissimuladamente, ora afirmando que as reivindicações são pouco definidas, ora apontando para a falta de líderes identificados. Ou, ainda, encontrando no seio do movimento uma assim chamada “direita extremada”, ou “fascista”.

Para os bons entendedores, as bandeiras estão bastante claras: o Estado brasileiro, no seu senso mais amplo, afastou-se completamente dos cidadãos, que não são ouvidos, a não ser através de simulacros de participação, e governa com o intuito único da manutenção do poder, atendendo a grandes interesses econômicos, e granjeando popularidade através de doações aos mais pobres, tanto insuficientes quanto provisórias.

A corrupção, incontrolável, grassa, e as definições de prioridades, como a Copa do Mundo, mostram, com a maior clareza, que esse tipo de evento, que se sabia propício aos grandes desvios, foi eleito por meia dúzia de governantes, em detrimento de outros investimentos dos quais carecem de fato grandes fatias da população brasileira, aquilo que dizem os cartazes, educação, saúde, segurança. Pergunta-se, numa situação como essa, se não caberia justamente um plebiscito, para que os brasileiros escolhessem entre sediar ou não a Copa do Mundo.

Mas, mais do que tudo, esse movimento, que já vitimou a popularidade da presidente, cujo partido está no poder desde 2003, escancara o enxovalhamento dos ideais do próprio PT, pois a maioria dos protestos se referem às principais motivações do eleitorado que elegeu Lula, as promessas de austeridade no trato dos recursos públicos, o combate à corrupção, a eficiência nos serviços públicos, enquanto o que se constata é esbanjamento (mais de 100 mil funcionários contratados, 39 ministérios, um número alucinante de correligionários em todas as instâncias públicas etc.), corrupção no centro do poder petista, comprovada em julgamento da mais alta esfera jurídica do país (sem as prisões correspondentes), e uma absoluta falta de serviços qualificados, onde a segurança, a saúde e a educação navegam na mais absoluta desorganização.

Desse modo, é compreensível que alguns políticos tentem salvar-se dessa debacle, ora aderindo aos protestos, como se não se referissem diretamente às omissões e fracassos de seu próprio governo, ora encontrando inimigos etéreos, ancorados na ideologia que o próprio partido dominante há muito renunciou.

Mas, e as mudanças, se limitariam aos vertiginosos descontos nas passagens de ônibus, ou à promessa de um plebiscito, aí sim, difuso e mal definido? Que tal uma modificação política substancial, como um Legislativo unicameral? Que tal uma reforma tributária de fato, centrada na movimentação financeira, desafogando os ganhos salariais e os impostos ocultos que pagam os mais pobres? Que tal uma representação legislativa municipal voluntária, sem remuneração, para colher a colaboração dos cidadãos de fato interessados nas melhorias da vida dos munícipes?

Creio que todos devemos, primeiro, ter esperança de que esses movimentos tenham força para promover grandes mudanças, e depois, que saibamos todos identificar os subterfúgios que já se enxergam, buscando a manutenção de privilégios e distorções. Aliás, um bom começo seria que se mandassem para a prisão os condenados com sentenças fixadas, não somente os que roubam ovos no mercado, mas os que assaltaram o erário e até agora não conheceram a visão que se tem através das grades.

*MÉDICO PNEUMOLOGISTA

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